1 de jun de 2010

FUNDO PRIVADO FRANCISCO XAVIER DA COSTA, UMA JANELA PARA OUTRA ÉPOCA


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Benito Bisso Schmidt
Professor do Departamento e do PPG em História da UFRGS
Diretor do Memorial da Justiça do Trabalho no RS

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No dia 3 de dezembro de um ano incerto da década de 1870, em Porto Alegre, nasceu Francisco Xavier da Costa, filho de um baiano e de uma gaúcha. Muito cedo ficou órfão de pai e teve que buscar emprego para ajudar sua mãe e suas irmãs. Mulato e pobre, certamente enfrentou uma série de preconceitos, naquele final de século que assistia ao declínio da escravidão e da monarquia. Ingressou como aprendiz numa oficina de litografia, setor dominado pelos alemães. Aos poucos, galgou a hierarquia do ofício e tornou-se um hábil perito gravador. Entre os imigrantes de origem germânica, aprendeu o idioma de Goethe e conheceu sua esposa, a austríaca Leopoldina, com quem teve 6 filhos.

Desde a última década do século XIX, engajou-se no nascente movimento operário gaúcho, tornando-se o grande propagador das idéias socialistas na capital do Estado. Nesse sentido, participou da fundação de partidos operários e de associações profissionais, organizou congressos de trabalhadores e liderou greves e meetings. Defendia a organização política dos trabalhadores, propugnando a formação de partidos autenticamente operários que pudessem eleger representantes dessa classe, os quais lutariam pela emancipação do proletariado e pela melhoria de suas condições de vida e trabalho. Portanto, era o que se poderia chamar de um socialista reformista.

Em 1906, liderou a primeira greve geral do Rio Grande do Sul que tinha, como sua reivindicação principal, a jornada de 8 horas de trabalho. No início da década de 1910, frente ao avanço dos anarquistas, dos quais era férreo inimigo, na organização operária de Porto Alegre, aproximou-se do Partido Republicano Rio-grandense (PRR), que dominava a política estadual desde o final da Revolução Federalista (1893-1893). Em 1912, elegeu-se Conselheiro Municipal, uma espécie de vereador da época, tornando-se o primeiro operário e o primeiro afro-descendente a ocupar esse posto. A partir daí, tornou-se um destacado nome da elite política local, propondo, no Conselho, diversas medidas que beneficiavam os operários. Faleceu em 1934, cercado de homenagens. Atualmente, empresta seu nome a uma rua do Bairro Ipanema, na zona sul de Porto Alegre.

Construí a biografia de Xavier da Costa na minha tese de doutorado, defendida em 2002 na UNICAMP. Ao procurar rastros de sua atuação, encontrei sua filha caçula, e única viva, Anita Xavier da Costa, que havia se tornado uma espécie de “guardiã da memória” do pai. Com a pele morena do pai e os olhos claros da mãe, Dona Anita foi uma fonte fundamental para a pesquisa que eu realizava. Generosa e delicada, recebeu-me várias vezes em sua residência, a mesma onde morara Francisco, e contou-me muitas histórias sobre sua família, sempre regadas com gostosas fatias de bolo acompanhadas de xícaras de café. Depois, temendo não encontrar herdeiros para essa memória, doou-me fotografias, jornais, papéis e objetos de seu pai, um verdadeiro relicário de lembranças e afetos. Ciente de que esse “tesouro” não poderia ser “entesourado”, procurei o Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho, sem dúvida um dos espaços de preservação mais sérios e respeitados de nosso Estado. Com muita competência, os profissionais da instituição restauraram aqueles papéis e objetos danificados pelo tempo e organizaram, seguindo os critérios arquivísticos mais atualizados, o conjunto do acervo que, a partir de hoje, passa a ser disponibilizado ao público interessado em conhecer os percursos desse homem e as possibilidades e limites de seu tempo. Parabéns à equipe do Moysés Vellinho! Sinto-me recompensado em ter intermediado essa transação. Porto Alegre merece conhecer melhor os homens e mulheres que, como Xavier da Costa, fizeram sua história.

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