2 de set de 2015

Memórias poéticas



ESSA PEDRA I


Essa pedra, diante da qual tu estás sentado,
Conhece-me há anos, há mais de sessenta.
Se falasse, diria que seu corpo maltratado,
Até hoje reclama pela unção de água benta,

Prá curar na sua carne feridas dilacerantes,
Que os pés dos colegiais do grupo escolar
Produziram, co’as disparadas estonteantes,
Enquanto gritavam e riam, sem nunca parar.

Velha pedra, não me condene – era criança.
Não fazia idéia que os pés, na minha dança,
Jogados de súbito nas suas carnes naturais,

Causariam, com o tempo, essas rachaduras,
Das quais, Velha Pedra, não te livrarás mais.
Perdão, por lhe ter causado tantas amarguras!

Cyro Martini – agosto 2011





ESSA PEDRA II




Eu julgo ter ferido tuas cares naqueles dias.
Há quantos anos num passado bem distante,
Eu, de pés descalços, enquanto talvez tu rias,
Ia a teu encontro, prá lançar-me num instante.

O impacto de meus pés, não pensando em ti,
Mas apenas brincando como uma criança feliz,
Talvez lhe doessem muito mais do que sentir
Nas carnes, na alma, embora não fossem vis.

Aquele grupo escolar dos guris dos arredores
Foi-se dessas casas, mas tu, Pedra, ficaste aí.
O tempo deu-te essas rugas, te envelhecendo.

Também envelheci, com alegrias e com dores.
E, com os cabelos brancos, estou diante de ti,
Olhando e, àquele meu passado, estou vendo!

Cyro Martini – agosto 2011






INVERNO DO PASSADO


Hoje, saí
Procurando pelo passado,
Procurando pelo vento gelado,
Procurando pelo capim
Branco pela geada...
Não encontrei nada.

Mês de julho,
Frio de rachar os dedos;
Já desde cedo,
Gurizote andando pela rua,
Desviando do terreno embarrado,
Assim era no passado.

No terreno acidentado,
O gurizote por lá andava,
Cuidando por onde pisava,
Seguia, atendendo sua obrigação.
Cedo do dia ainda,
Frio de gelar, mas a manhã era linda.

Mas onde está o passado?!
Mês de julho: calor!!
Quem poderia supor?!
Chuvinha miúda... fria,
Mas o corpo rijo do guri
O dever tinha de cumprir.

E cumpria sua obrigação.
Ainda iria para o grupo escolar;
Também tinha que estudar.
De guarda-pó e tamanco,
Contente da vida,
A que ficou por lá perdida.

E o frio de julho!?
Onde ele está?!
Olho... não o vejo nem aqui nem lá.
Perdi o meu passado:
Em vez de frio... calor.
Não há frio... se vá por onde for.

Outros tempos são estes.
Aqueles frios não existem mais.
Ficaram lá atrás.
Se ficava se aquecendo sob o sol,
Diante da moradia,
Para aquecer-se naquele dia.
  
Frio de renguear cusco,
Assim todos exclamavam
E sob o sol, onde estavam,
Por mais que imaginassem,
Jamais eles pensariam
Que o mês de julho seria assim um dia.

Mês de julho com calor!
E o inverno com geada onde ficou?
Daquele inverno, nada restou?
Até o tempo não é mais o mesmo.
Boquiaberto... espantado...
Pergunto: onde está o passado?!



Cyro Martini – julho 2015






PINGENTE


De manhã...
Dependurado no bonde,
Ia para o colégio.
No passado, não sei onde,
Lá ficou o meu prazer.
Dependurado no Partenon,
Gostaria de reviver.
No para-choque dependurado,
Dianteiro ou trazeiro.
Em qualquer lado,
No acesso sem porta...
Até na lateral...
Onde não importa.
No centro descia,
Co’os livros na mão,
Para o colégio... eu ia.
Bom tempo!
Não volta mais
Prá mim... prá ninguém.
Ficou lá... lá atrás!


Cyro Martini – fev 2015
  






  
  



      Apresentamos alguns poemas do pesquisador Cyro Martini que falam do passado. Essa Pedra I e Essa Pedra II se referem, provavelmente, aos matacões do pátio do atual Arquivo Histórico, antiga Escola  Apeles Porto Alegre,onde Cyro estudava.
   
    Em Pingente, ele resgata a época dos bondes em Porto Alegre.

    E, em Inverno do Passado, ele discorre sobre um dos assuntos mais comentados atualmente no RGS:o verão fora de época.
  






  

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