9 de ago de 2011

O Medo do Desafio e o Prazer da Descoberta





Leandra O. Pinto -Estudante de Ciências Sociais- Ex-estagiária em Educação Patrimonial no AHPAMV




“O Arquivo Histórico tornou-se um mundo repleto
de descobertas que esperavam por mim
todos os dias.”



Em junho deste ano, concluí o período de dois anos como estagiária do Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho e, portanto, precisei sair visto que alcancei o período permitido de experiência. A sensação que ficou em mim é de que o tempo passou muito rápido, e é interessante pensar que isso ocorreu em um Arquivo, local destinado à preservação da memória e, portanto, de um determinado tempo vivido. No entanto, o Arquivo não guarda apenas a memória contida nos documentos que registram a história de Porto Alegre, mas também, a história da própria Instituição, marcada por seu trabalho de excelência junto à comunidade porto-alegrense, tanto no sentido de disponibilizar à população local o acesso à documentação histórica, como pelo trabalho de formação dos profissionais de diversas áreas que procuram o Arquivo em busca de apoio em sua prática. Além disso, a Instituição conta com um amplo Programa de educação Patrimonial que disponibiliza visitas guiadas ao público em geral, assim como atividades voltadas aos grupos escolares. Milhares de pessoas de variadas faixas etárias já passaram pelo Arquivo, fortalecendo cada vez mais sua função como instituição formadora de cidadania.

Sabemos ainda que as instituições são formadas por pessoas, que através de seu trabalho, desenvolvem os princípios norteadores de uma instituição. No caso do Arquivo, vemos que está representado por uma equipe excepcional de profissionais que reconhecem a importante missão de preservação dessa memória local e portanto são responsáveis pelo reconhecido trabalho de maestria realizado junto à população, não apenas de Porto Alegre como de visitantes de outras cidades Tendo em vista a minha satisfação em ter passado por esse espaço que dentre tantas vivências, permitiu-me conhecer um pouco da história de Porto Alegre que - apesar de não ser minha cidade de origem - é a cidade que escolhi para viver e que me acolheu de tal forma, que hoje lhe confiro um pouco da minha identidade, não podia deixar de agradecer a todos aqueles que contribuíram para que minha experiência como estagiária fosse repleta de aprendizagens, tanto em relação ao contato com o mundo profissional como pela formação humana, uma das características fundamentais da Instituição. Como forma de agradecimento, me propus a realizar um depoimento sobre o meu tempo vivido no Arquivo para ser postado no blog da Instituição, cujos primeiros passos presenciei, e que hoje já se estabeleceu como mais uma ferramenta unindo o Arquivo e a população.

Esses dois anos em que estive no Arquivo foram repletos de desafios e descobertas, mas como se trata de um relato, lembrei-me de um fato que aconteceu na minha primeira semana de estágio e sempre esteve na minha narrativa quando o assunto era a experiência no Arquivo Histórico. Sabia que estava entrando na vaga destinada à Educação Patrimonial. Entendi, desde então, que minha função seria monitorar essas atividades, atuando tanto na pesquisa e preparação como na execução das mesmas. Pois bem, sabia quais eram meus atributos e, apesar de me sentir insegura com relação às monitorias, visto que não tinha experiência como educadora, estava consciente que, mais cedo ou mais tarde, teria de fazê-las. O que eu não sabia, é que a experiência no Arquivo Histórico seria muito mais complexa. Ali estava eu, nos primeiros dias, ainda me apropriando do espaço, quando fui requisitada naquele que deve ter sido o maior desafio de todos: forrar uma caixa de papelão. Mas como assim, qual o desafio em forrar uma caixa? Acreditava até então não possuir nenhum tipo de habilidade manual e estava convencida de que não conseguiria dar conta da tarefa. Com um pouco de receio, afirmei que não poderia realizá-la. Foi então que minha coordenadora, de modo simples, me falou: “É apenas uma caixa de papelão. Não precisa ficar perfeita, apenas precisa ficar forrada.” Em seguida, vendo que continuava angustiada, pois não sabia nem por onde começar, levantou-se e forrou rapidamente uma caixa, afirmando que habilidade não é algo que uns têm e outros não, mas uma capacidade que se conquista através de compromisso e disciplina.
Talvez esse fato tenha sido um marco de transição entre o medo do desafio e o prazer da descoberta. Nesse dia, forrei três caixas e não me lembro de ter ficado antes tão satisfeita com a realização de uma atividade manual. A cada dia que se passava, minha criatividade era desafiada, e uma nova habilidade ia sendo conquistada. O Arquivo Histórico tornou-se um mundo repleto de descobertas que esperavam por mim todos os dias.

Leandra na oficina de brinquedos (usando garrafas pet ) no Lar Fabiano -dezembro 2010

Pude observar que outras pessoas que passaram pelo Arquivo compartilham desse sentimento, atuando como parceiros da Instituição. Essa é a melhor forma de retribuir a experiência gratificante de poder fazer parte, por um período, de uma instituição modelo voltada ao desenvolvimento de capacidades tão necessárias ao convívio social. Foi no Arquivo que aprendi que não há limites nem obstáculos para aqueles que trabalham visando a uma missão:a de servir a comunidade com compromisso e competência. Por isso, relatar minha experiência é uma forma de agradecer a todos aqueles que contribuíram nessa minha trajetória, assim como difundir a natureza formadora do Arquivo Histórico que está à disposição de todos que, como eu, buscam um espaço capaz de oferecer uma experiência rica de preparação para a vida profissional, assim como para a vida comunitária.

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